10 Exemplos de Uso da Comunicação Não Violenta no Dia a Dia
- Iasmin Montini
- 6 de nov. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 22 de nov. de 2025
A Comunicação Não Violenta (CNV) é um processo de comunicação que fortalece nossos relacionamentos interpessoais e nos ajuda a lidar melhor com conflitos no dia a dia. Criada pelo psicólogo Marshall Rosenberg, essa abordagem ajuda a expressar sentimentos e necessidades de forma empática, sem julgamentos ou acusações. Aplicar a CNV na rotina, seja em casa, no trabalho, com amigos ou parceiros, transforma conversas difíceis em oportunidades de conexão e entendimento.
Em sua essência, a CNV se concentra em responder a duas perguntas vitais: "O que está vivo em nós?" e "O que podemos fazer para tornar a vida mais maravilhosa?". Isso exige que nos expressemos e escutemos o outro por meio de quatro componentes centrais:
Observação: Expressar o que vemos ou ouvimos evitando qualquer avaliação ou julgamento.
Sentimento: Identificar as emoções ou sensações que surgem, sem confundi-las com pensamentos ou diagnósticos.
Necessidade: Reconhecer os valores ou desejos universais que são a causa dos nossos sentimentos (e não o comportamento da outra pessoa).
Pedido: Solicitar uma ação concreta e positiva para enriquecer a vida, evitando que soe como uma exigência.
A CNV é uma abordagem eficiente para capacitar o autoconhecimento e o restabelecimento da confiança. Desenvolver essa habilidade significa treinar, treinar, treinar e aceitar que o objetivo não é a perfeição e sim o comprometimento com pequenas melhorias consistentes ao longo do tempo.
A seguir, apresento 10 exemplos práticos de como aplicar os princípios da CNV no dia a dia:

1. Lidando com um espaço comum desorganizado
Em vez de rotular alguém como "preguiçoso" ou "desorganizado", o que diminui a probabilidade de a mensagem ser ouvida, a CNV foca na observação específica e concreta do que gera o desconforto.
Julgamento: "Você é preguiçoso e nunca lava a louça. Eu não sou sua empregada!"
Abordagem CNV: "Quando vejo a pia cheia de louça do café da manhã há duas horas (Observação), eu me sinto frustrado (Sentimento) porque preciso de ordem e limpeza (Necessidades) no nosso espaço. Você estaria disposto a lavá-la agora (Pedido)?"
Na CNV, o primeiro passo é diferenciar observação de julgamento para diminuir a defensividade e aumentar a chance de colaboração. Quando transformamos críticas como “você é preguiçoso” em uma descrição concreta como “a pia está cheia há duas horas” abrimos espaço para que a outra pessoa realmente escute. E, ao finalizar com um pedido claro e específico, como “você pode lavar agora?”, criamos uma rota prática para que a necessidade seja atendida, fortalecendo a conexão e reduzindo respostas reativas.
2. Expressando apreciação e reconhecimento
Na CNV, o reconhecimento não é sinônimo de elogio (que é visto como um julgamento positivo e, por vezes, uma forma de manipulação), mas sim uma celebração da vida. O objetivo é incentivar que o outro saiba como ele enriqueceu a nossa vida.
A CNV utiliza três componentes para expressar gratidão: a ação, o sentimento gerado e a necessidade atendida.
Abordagem Convencional (Elogio/Julgamento): "Você é um colega muito atencioso e gentil."
Abordagem CNV: "Quando você se ofereceu para me dar carona para casa na noite passada (Observação) fiquei grato e aliviado (Sentimentos) porque eu precisava de um pouco de descanso e segurança (Necessidades) no fim do dia."
Ao expressar apreciação com base em ações concretas, sentimentos reais e necessidades atendidas, criamos uma forma de reconhecimento que nutre a relação e fortalece a confiança. Em vez de deixarmos o outro tentando adivinhar o que fez de significativo, mostramos exatamente como sua atitude impactou nossa vida. Isso transforma o reconhecimento em conexão genuína, e não em um elogio vazio, aprofundando vínculos e estimulando comportamentos colaborativos no dia a dia.
3. Respondendo a críticas e julgamentos pessoais
Quando alguém nos acusa (“Você é egoísta!”) ou nos rotula (“Você é sensível demais!”), nossa reação automática costuma ser nos defender ou contra-atacar. A CNV nos convida a fazer o oposto: colocar as “orelhas da CNV” e tentar escutar a crítica não como uma verdade sobre quem somos, mas como um sinal de que a outra pessoa está com alguma necessidade importante não atendida.
Abordagem Reativa (Defesa/Contra-ataque): "Eu não sou egoísta! Eu vivo para te ajudar. Como você pode dizer isso?"
Abordagem CNV: “Você está se sentindo frustrado porque precisa de mais reconhecimento pela sua contribuição?”
A prática da CNV nos lembra que julgamentos e críticas não são sobre nós, são expressões de sentimentos e necessidades do outro. Quando escutamos além das palavras duras e buscamos a necessidade por trás do insulto, deixamos de ouvir ataques pessoais e começamos a ouvir a verdade do que importa para a outra pessoa. Isso reduz a reatividade, amplia a empatia e cria espaço para um diálogo mais humano e construtivo.
Isso não significa ignorar o impacto das nossas ações. Pelo contrário: a CNV nos convida a assumir responsabilidade ética por como nossas escolhas afetam as outras pessoas. No entanto, quando alguém fala sobre “quem somos” (“você é isso”, “você é aquilo”) ela está, na verdade, descrevendo uma experiência interna dela, marcada por necessidades que não conseguiu atender na relação conosco. A maturidade está em distinguir esses dois planos: reconhecer com honestidade o impacto real das nossas ações e, ao mesmo tempo, não tomar como identidade aquilo que é, essencialmente, uma expressão da dor e das necessidades da outra pessoa.
4. Fazendo um pedido positivo e específico
Muitas conversas se complicam não por falta de boa intenção, mas pela ausência de nitidez e transparência. Quando fazemos pedidos vagos ou baseados apenas no que não queremos, aumentamos a chance de frustração. Na CNV, pedidos são formulados em linguagem de ação positiva, descrevendo o que desejamos que aconteça e de forma suficientemente específica para que a outra pessoa possa compreender e decidir sem tantas adivinhações.
Abordagem Negativa/Vaga: “Não quero que você trabalhe tanto”.
Abordagem CNV: "Eu gostaria que você me dissesse se estaria disposto a passar pelo menos uma noite por semana comigo e com as crianças (Pedido) porque sinto falta da nossa conexão em família (Necessidade)."
Pedidos claros, positivos e ancorados em ações concretas revelam o que queremos construir na relação de forma mais precisa. Quando alguém usa termos amplos como “compreensão”, “atenção” ou “presença” não diz qual comportamento atenderia à necessidade expressa. Quando isso acontecer, você pode pedir pra pessoa algo observável, como: “Você poderia repetir o que ouviu para ver se estamos alinhados?” Essa precisão evita mal-entendidos, traz objetividade e fortalece o senso de colaboração.
5. Gerenciando a raiva internamente
A raiva é um sinal de alerta de que ultrapassamos nossos limites, estamos desconectados das nossas necessidades e estamos pensando por meio de julgamentos morais que, embora "automáticos", não nos ajudam a lidar com a situação de forma assertiva. Reconhecer isso já é um gesto de inteligência emocional. Para transformar a raiva em clareza e ação consciente, a CNV propõe um processo interno em quatro passos:
Identificar o gatilho/estímulo: Meu colega de trabalho chegou 30 minutos atrasado à reunião.
Identificar o julgamento: "Ele é um irresponsável e não respeita o meu tempo!"
Conectar-se com sentimentos e necessidades não atendidas: "Estou frustrado porque preciso de respeito pelo meu tempo e previsibilidade. O que estou dizendo a mim mesmo que me causa tanta raiva é o julgamento de que ele é irresponsável.”
Direcionar a energia da raiva para ação construtiva: Com a necessidade clara, posso escolher como agir. Pedir um alinhamento de horários, falar sobre o impacto do atraso ou propor combinados. A energia da raiva deixa de ser reativa e passa a ser mobilizadora.
Quando reconhecemos que o estímulo não é a causa do sentimento, mas sim a interpretação que fazemos dele, conseguimos transformar a raiva em sentimentos mais manejáveis e comunicáveis. A partir daí, expressar com assertividade o que sentimos e precisamos se torna o primeiro passo para resolver a situação com mais consciência e menos impulsividade.
6. Lidando com a Recusa ("Não") de Forma Empática
O medo de ouvir "não" é comum, mas o problema nunca é o "não", e sim o que comunicamos a nós mesmos quando o outro recusa. Na CNV, o "Não" é uma expressão desajeitada do que a pessoa quer, uma necessidade que não está sendo atendida por nossa estratégia.
Abordagem Coerciva/Ofensiva: (Após a recusa do colega em ajudar): "Se você não pode me ajudar, vou ter que me virar sozinho, e da próxima vez que precisar, eu não ajudo."
Abordagem CNV (Empatia e Busca Mútua): "Você está dizendo 'não' (O) porque está exausto (S) e precisa de descanso (N), e minha tarefa de última hora conflita com isso. Você estaria disposto a (P) me ajudar com uma parte menor, ou podemos buscar outra solução que atenda à sua necessidade de descanso?"
O Princípio em Ação: Se o outro disser "não", devemos oferecer acolhimento empático para com o que o está impedindo de dizer "sim". Se o objetivo é a conexão, o pedido não é uma exigência; a recusa deve ser recebida com o mesmo respeito.
7. Estabelecendo Limites de Comportamento Inaceitável
A assertividade da CNV exige a capacidade de estabelecer limites. Isso não significa reatividade ou punição, mas identificar quais pedidos vão além do que você pode oferecer no momento e nomear com clareza o comportamento ou pedido inadequado sem recorrer a julgamentos.
Exemplo: Durante uma discussão, a pessoa começa a gritar ou a fazer comentários sarcásticos.
Abordagem CNV (Estabelecimento de Limite): "Sei que esta é uma conversa difícil. É comum ficar irritado. Mas eu não vou aceitar que você grite comigo".
Alternativa: Se a conversa se tornar improdutiva, peça um intervalo para "dar uma volta ou recuperar o fôlego".
O Princípio em Ação: Conectar-se à própria necessidade antes de agir, permitindo dizer “não” ou definir limites claros sem ferir o outro, resulta em uma comunicação firme, mas humana — que protege tanto a si mesmo quanto a relação.
8. Pedindo Empatia e Escuta Sem Conselhos
Quando estamos em sofrimento ou frustração, muitas vezes só precisamos ser escutados com empatia, sem que o outro tente "consertar" ou "educar". Oferecer conselhos é um impulso comum, mas pode ser uma forma de atrapalhar a conexão.
Exemplo: Após um dia de trabalho, sua amiga te conta que seu chefe foi grosseiro com ela na frente dos colegas e que isso a deixou muito envergonhada.
Resposta Dando Conselhos: “Ah, você não devia deixar isso te afetar. Da próxima vez, responde à altura! Ou então conversa com ele e diz que não aceita ser tratada assim. Se fosse eu, não deixava barato.”
Resposta com Empatia: “Nossa, imagino o quanto isso deve ter sido desconfortável e constrangedor pra você. Ninguém gosta de ser exposto assim. Quer me contar mais sobre o que aconteceu?”
O Princípio em Ação: Antes de oferecer soluções, buscamos compreender e acolher o sentimento do outro. Ao reconhecer sua dor, criamos conexão genuína e abrimos espaço para que o diálogo aconteça de forma respeitosa e humana.
9. Confirmando o Entendimento do Outro (Paráfrase Empática)
Para uma comunicação eficaz e sincera, é importante garantir que a mensagem enviada foi a mesma que foi recebida. Uma técnica de demonstração da curiosidade genuína é a paráfrase. A paráfrase é a habilidade de repetir com as próprias palavras o que o outro disse.
Abordagem Convencional: "Sim, entendi tudo." (E, na verdade, não absorveu a carga emocional.)
Abordagem CNV (Paráfrase Empática): "Deixe-me ver se entendi: você está se sentindo incomodado (Sentimento) porque o volume alto da música não atende à sua necessidade de paz e descanso (Necessidade). É isso?"
O Princípio em Ação: Em mensagens intensamente emocionais, é seguro presumir que as pessoas apreciarão nos ouvir repetir o que ouvimos delas. A paráfrase mostra que você escutou e dá ao outro a oportunidade de corrigir qualquer mal-entendido.
10. Indo Além do Conflito de Fatos (Ouvindo Necessidades Universais)
Muitos conflitos persistem porque as pessoas entram em uma disputa para ver quem está certo. A CNV nos ensina a focar nas necessidades universais que nos unem.
Exemplo: Um projeto importante atrasou, e a equipe está nervosa discutindo quem vai contar ao chefe. Todos começam a apontar a culpa uns dos outros para se livrar da tarefa.
Abordagem CNV: Em vez de discutir um culpado, o diálogo explora as necessidades:
Explorando as Necessidades: “Gente, parece que estamos todos bem estressados com essa situação. Posso tentar entender o que cada um precisa agora?”
Pessoa 1:“Eu só não quero ser culpado sozinho.”
Pessoa 2: “E eu só queria que a gente lidasse com isso como equipe, não cada um se defendendo.”
Explorando as Necessidades: “Entendi. Você precisa de justiça e reconhecimento pelo seu esforço, certo? E para você é importante ter colaboração e apoio mútuo?”
Pessoas 1 e 2: Sim, exatamente.
Explorando as Necessidades: “Ok. Se o que todos queremos é reconhecimento e colaboração, podemos pensar juntos em como explicar isso ao chefe de forma honesta e unida?”
O Princípio em Ação: A CNV adota a tática do "poder com" em vez do "poder sobre", permitindo que as necessidades de todos sejam satisfeitas. Quando nos conectamos no nível das necessidades gerais, conflitos que parecem insolúveis começam a se tornar solúveis, pois enxergamos a humanidade mútua.
Considerações Finais sobre a Comunicação Não Violenta
O processo da Comunicação Não Violenta é uma linguagem da vida que, apesar de parecer simples, é desafiadora de aplicar, pois fomos culturalmente programados para o julgamento e a recompensa/punição.
Para aprimorar a CNV, é crucial praticar a clareza espiritual (consciência de como queremos nos conectar) e o treino constante, anotando os momentos de julgamento para transformá-los em necessidades não atendidas. Ao focarmos na curiosidade em vez da certeza, honrando o que está vivo em nós e nos outros, tornamos a assertividade um ato de amor e cooperação, e não de violência.
Se quiser aperfeiçoar as suas habilidades de comunicação, conheça o nosso trabalho:
Liderança pelo Diálogo: Torne-se uma liderança que sabe conversar com assertividade e empatia na medida certa.
Guia Prático para Conversas Difíceis no Trabalho: Existe um caminho prático e guiado para aprimorar suas conversas difíceis no trabalho com a CNV. E é exatamente isso que você encontrará neste guia.
Minicurso de Feedbacks Eficazes: Seu guia passo a passo para dar feedbacks construtivos e empáticos através da CNV.
Ebook Conversas Reativas: Descubra maneiras práticas e eficientes de lidar assertivamente com conversas emocionais e altamente reativas.
Mentoria Individual: Durante as sessões de mentoria, você aprenderá a incorporar a prática da Comunicação Não Violenta (CNV) em sua vida e/ou receber suporte para transições de carreira de forma personalizada.
