Como foi ficar 10 dias em silêncio no Curso de Meditação Vipassana


Em 2017 resolvi entrar em um processo intenso de descobertas internas. Sou bastante interessado em entender o ser humano. Autoconhecimento, espiritualidade, emoções, psicologia: já li bastantes conteúdos, fui em palestras, fiz formações, etc. Muita teoria. Por ter a tendência de racionalizar demais as coisas, queria uma experiência que me tirasse um pouco disso, algo que me levasse à prática e ao sentir.


Eis que um belo dia, um amigo da minha mãe comenta sobre sua experiência em um retiro de meditação que durava dez dias e era feito em completo silêncio. Ouvindo a experiência dele, na hora pensei: É DISSO QUE EU PRECISO PARA ESSE ANO! Na época eu me sentia um pouco sobrecarregado e cansado do mundo externo. Cansado de receber muitas informações e ficar falando o tempo todo.


Na hora da inscrição eu não li muitas informações sobre como seria o retiro, em parte por preguiça, em parte por ficar com receio de desistir por saber como seria todo o processo. Eu sabia que era um curso de meditação e que eu ia ficar dez dias sem falar nada, para mim já era informação suficiente.


Passaram-se alguns meses após a inscrição e quando eu vi já estava na semana de início do retiro. 2 dias antes resolvi dar uma olhada nas várias páginas de informações que eles mandaram por email. O cronograma era mais ou menos assim: acordar às 4:30, meditar, tomar café, meditar, almoçar, meditar, comer duas frutas, meditar, palestra, meditar e dormir às 21:30. Eram aproximadamente 10 horas de meditação por dia. Confesso que ver esse cronograma me deu um aperto no coração, mas vamos lá Ivan, sem desistir.


O curso se inicia. O 1° dia já dá indícios de que não será fácil. A instrução era simples: preste atenção na sua respiração. No ar entrando e saindo das narinas. A mente não para quieta na hora de meditar, ao longo das horas de meditação surge um turbilhão de pensamentos. Além disso, minha perna direita já começa a doer de ficar sentado com as pernas cruzadas. No quarto em que eu estava dormindo tinham mais 5 pessoas e era bizarro conviver sem me comunicar e nem ao menos olhar para a cara delas. Parecia que todo mundo estava bravo e de mau humor. Mas tudo bem, ainda tinha aquele encantamento de 1° dia, era tudo novo.


A técnica de meditação Vipassana era ensinada pouco a pouco ao longo dos dias. É uma das técnicas mais antigas de meditação e foi proposta por Buda a 25 séculos atrás como um caminho de iluminação. A cada dia a rotina era a mesma, porém as descobertas interiores eram diferentes. Ficar em silêncio coloca você em contato extremamente profundo com seu interior. Um contato que dificilmente se chega em situações normais da vida. O contato com a mente fica mais sensível. Minhas memórias surgiam como um filme em minha cabeça, dava até para escutar a voz das pessoas falando. Os sonhos que eu tive ao longo desses dias foram extremamente vívidos, longos e intensos, carregados de diversas mensagens fortes. Em alguns momentos eu adora conviver comigo, em outros momentos eu não me aguentava mais.


No 2° dia minha perna já estava ardendo de tanta dor. Fui falar com o professor (tínhamos alguns minutos por dia caso quiséssemos tirar dúvidas sobre a técnica) e ele disse mais ou menos assim: "tenta segurar mais um pouco que ainda está cedo". O medo começou a invadir a minha mente. As dores que surgem são consideradas parte do processo. São os chamados "sankaras", condicionamento da mente que carregamos e vão emergindo para superfície conforme mantemos a prática da meditação. Comecei a entender que a meditação Vipassana vai além de entrar em um estado de relaxamento. Eu estava em um forte processo de cura interior e isso, mesmo doendo, me deixou animado para continuar.


Na noite do 3° para o 4° dia o desespero bateu. Acordei 00:00 com muita ansiedade, medo e vontade de ir embora. Era minha mente reagindo a todo aquele processo. Em poucas vezes na vida me senti tão em pânico quanto nesse. Foi o ápice da bad. Fui dar uma volta, inspirei, expirei e voltei a dormir. Não tinha muito o que fazer.


Durante todo o 4° dia me senti mal e fiquei com vontade de desistir. Pensava em todo o cenário de retorno. Já estava com saudade da minha família e das pessoas que eu amo. E pensava comigo mesmo "cara, por que você tá fazendo isso? sua vida lá fora é tão boa e confortável! No fundo eu sabia que todo o processo iria ser recompensador no final, e que eu estava fazendo um bem para mim e todos que amo.


Em todos os dias haviam momentos mais depressivos, mas no geral minhas emoções deram uma estabilizada depois do 4° dia. Todos os dias eu passeava no bosque da casa. Olhava para as árvores, galhos, folhas, insetos com um grau de observação e meticulosidade como nunca havia olhado antes. As caminhadas no meio da natureza me faziam muito bem, eu recarregava minhas energias. A dor na perna foi se dissipando ao longo do processo, de maneira quase mágica. Mas em compensação comecei a sentir dores nas costas.


Os ensinamentos de Buda que são trazidos à prática com a técnica são incríveis. Um dos maiores desafios: manter a equanimidade. Geralmente reagimos às nossas sensações com desejo ou aversão. Se algo é gostoso queremos que continue existindo e se repita. Se algo é ruim queremos que aquele momento passe e não se repita. Então queremos parar no tempo ou avançar no tempo. E não vivemos o presente, o agora. Isso que fazemos é besteira, pois tudo é inconstante. Tudo é impermanente e certamente irá mudar. Essa é a lei da natureza, tudo funciona assim. E falar para viver no presente é lindo, mas viver isso na prática é extremamente desafiador.


Eu sofri do início ao fim do processo. E em muitas vezes fiquei preso no passado e principalmente no futuro, ansiando para que o 10° dia chegasse. Tive momentos em que senti sensações maravilhosas e outros em que senti dor extrema. Também tive alguns vislumbres do que seria a equanimidade. Alguns minutos nesse estado. Acessei minhas sombras mais obscuras e também acessei um estado de gratidão enorme por simplesmente existir.


No 10° dia a conversa foi liberada depois das 10:00, nunca fiquei tão feliz em falar. A troca de experiências sobre o processo com os outros participantes foi incrível. E o mais impressionante, os laços entre nós estavam bem fortes. Parecia que nos conhecíamos a muito tempo, mesmo sem termos nos falado. Criou-se uma conexão profunda e diferente que eu, com minha super necessidade de comunicar, não conhecia e nem sabia que era possível.


Na volta para o mundo real, trouxe várias lições comigo e também trouxe várias feridas abertas. O processo de autoconhecimento leva você a conhecer o melhor e o pior de si. Já tinha lido e ouvido isso várias vezes, mas acho que só entendi de verdade depois de todo esse processo.


A prática meditativa não se restringe somente a sentar e meditar. Você pode aplicar esse estado no seu dia-a-dia, estando presente e prestando atenção nas suas sensações e no que está acontecendo aqui e agora. Desde saborear um prato de comida e sentir as sensações em sua boca, até caminhar e sentir a sola do seu pé tocando no chão, trazer esse estado é extremamente recompensador e saudável.


Para quem se sentir chamado, recomendo fortemente a experiência do Vipassana, nesse site você encontra mais detalhes sobre o curso.


Só vá se você se sentir chamado, não force processos para os quais você não se sente pronto, pois isso pode abrir questões que talvez não sejam legais de tocar nesse momento.


E para meditar você não precisa ficar 10 dias em silêncio meditando várias horas. Comece aos poucos.


Hoje em dias existem várias formas de iniciar essa prática. Vídeos com meditação guiada no Youtube. Aplicativos para smartphone.


Enfim, convido você a experimentar. Foi algo que mudou minha vida e espero que possa mudar a sua também :)

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